Como saber se o bebê está ouvindo bem (e por que importa)
- Audição
- Desenvolvimento
- Quando procurar ajuda

Você chama pelo nome e seu filho não vira. Bate a porta e ele nem se assusta. Ou, ao contrário, ele parece ouvir tudo, mas a fala está demorando. Saber como saber se o bebê está ouvindo bem é uma das primeiras perguntas que eu faço às famílias, porque a fala começa no ouvido: a criança fala o que escuta.
A boa notícia é que dá para observar muita coisa em casa, no dia a dia, sem aparelho nenhum. E, se surgir dúvida, existe avaliação para qualquer idade, inclusive para recém-nascidos.
Por que a audição vem antes da fala
Para aprender a falar, a criança precisa ouvir os sons da língua milhares de vezes: a sua voz, as músicas, os nomes das coisas, as conversas da casa. É ouvindo que ela percebe a diferença entre "pato" e "bato", entende o que as palavras querem dizer e, aos poucos, tenta imitar.
Quando a audição não está boa, mesmo que só um pouco ou só por um tempo, essa "matéria-prima" chega falhada. Por isso, sempre que a fala demora ou a criança não responde quando é chamada, checar a audição é um dos primeiros passos, antes de qualquer outra conclusão. Muitas vezes não é nada; às vezes é algo simples de tratar.
O teste da orelhinha: o primeiro cuidado
No Brasil, a triagem auditiva neonatal, o teste da orelhinha, é obrigatória e gratuita por lei (Lei federal nº 12.303, de 2010). Segundo as diretrizes do Ministério da Saúde, ela deve ser feita de preferência nos primeiros dias de vida, ainda na maternidade, e no máximo até o primeiro mês. É rápida, indolor e costuma ser feita com o bebê dormindo.
Dois pontos que confundem muitos pais:
- "Falhou" não quer dizer surdez. Pode ser só líquido no ouvido ou o bebê agitado na hora. O que importa é fazer o reteste e, se precisar, a avaliação completa no prazo que a equipe indicar.
- "Passou" não é garantia para sempre. Algumas alterações aparecem depois, e infecções de ouvido podem diminuir a audição por um tempo. Por isso, continuar observando em casa é importante.
Não sabe se seu filho fez o teste ou qual foi o resultado? Olhe a Caderneta da Criança ou pergunte ao pediatra na próxima consulta.

O que observar em casa, por idade
A tabela abaixo foi feita a partir das orientações da ASHA, a associação americana de fonoaudiologia, sobre como a criança costuma ouvir e falar em cada fase. São faixas, não provas: cada criança tem seu ritmo, e o que conta é o conjunto, não um dia isolado.
| Idade | O que costuma acontecer |
|---|---|
| Do nascimento aos 3 meses | Assusta com barulho forte; acalma ou sorri quando ouve sua voz; reconhece a voz de quem cuida |
| De 4 a 6 meses | Mexe os olhos na direção dos sons; percebe mudança no seu tom de voz; presta atenção em brinquedos que fazem barulho e em música |
| De 7 meses a 1 ano | Vira a cabeça na direção dos sons; olha quando é chamado pelo nome; começa a entender palavras do dia a dia, como "água" e "sapato" |
Um jeito simples de observar, sem transformar em teste: fique fora do campo de visão do bebê e chame o nome dele baixinho, ou balance um chocalho ao lado, sem que ele veja. Repare se ele procura o som. Faça isso em momentos diferentes, de forma leve, como brincadeira.
Brincadeiras que estimulam a escuta
Ouvir também se treina, e o melhor lugar para isso é a rotina:
- Brinque de "cadê o som?". Esconda um brinquedo que faz barulho atrás de uma almofada e pergunte, animado: "Cadê? Cadê o barulho?". Quando ele achar, festa.
- Cante com pausas. Cante uma música conhecida e pare antes da última palavra. Espere. Ele vai aprendendo a prestar atenção no que vem.
- Nomeie os sons da casa. "Ouviu? É o cachorro: au, au!" "Ouviu? A campainha!" Aponte para a origem do som enquanto fala.
- Fale de frente, na altura dos olhos. Assim ele ouve e vê a sua boca ao mesmo tempo, o que ajuda muito a entender e a imitar.
- Diminua o barulho de fundo. TV ligada o dia todo atrapalha a criança a separar a sua voz do resto. Nos momentos de conversa e brincadeira, desligue.
Quando procurar ajuda
Converse com o pediatra e peça avaliação com fonoaudiólogo (que pode incluir exames de audição feitos por ele ou pelo otorrinolaringologista) se você notar:
- seu filho não fez o teste da orelhinha, falhou e não refez, ou você não tem o resultado;
- ele não se assusta com barulhos fortes ou não procura os sons, de acordo com as faixas acima;
- não vira quando é chamado pelo nome com frequência, mesmo em ambiente calmo;
- tem infecções de ouvido de repetição, ouvido com secreção ou parece "ouvir só às vezes";
- a fala está demorando, ou ele parou de usar palavras que já usava;
- ele aumenta muito o volume da TV ou se aproxima demais para ouvir.
Nenhum desses pontos, sozinho, é diagnóstico. Não responder ao nome, por exemplo, pode ter várias explicações, e a audição é a primeira a ser descartada. Quem avalia é o profissional, e quanto antes, mais tranquila a família fica.
E se a avaliação mostrar uma perda auditiva, existe caminho: aparelhos, implante, Língua Brasileira de Sinais (Libras), terapia fonoaudiológica. Crianças surdas aprendem, brincam e se comunicam plenamente quando têm acesso cedo a uma língua, seja ela oral ou de sinais.
Para começar hoje
Hoje, em um momento tranquilo, chame seu filho baixinho fora do campo de visão dele e observe. Depois, cante uma música com pausa e veja se ele espera a próxima palavra. Se tudo parecer bem, siga conversando, cantando e brincando. Se ficou alguma dúvida, leve-a ao pediatra: perguntar nunca é exagero.
No curso, a Brígida mostra o que observar em cada fase e as brincadeiras que estimulam escuta, atenção e fala no dia a dia, com clareza sobre quando procurar um fono.

Quem escreve
Brígida Maris é fonoaudióloga formada pela UFMG, especialista em Linguagem e mestre em Neurociências. Criou o Cultiva Fala para ajudar famílias a estimular a fala em casa, no dia a dia.
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