Cultiva Fala — Estimulação da Linguagem Infantil
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Criança bilíngue demora mais para falar? O que observar

Brígida Maris, fonoaudióloga7 min de leitura
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Em casa, um fala português e o outro fala espanhol. Ou a família mora fora e a escola é em inglês. Ou vocês escolheram uma escola bilíngue. E aí, quando a fala parece demorar, vem a dúvida: será que duas línguas confundiram a cabeça do meu filho? Se você está se perguntando se a criança bilíngue demora para falar, respira: essa é uma das preocupações mais comuns nas famílias, e a resposta tem mais boas notícias do que parece.

Aprender duas línguas causa atraso na fala?

Segundo a ASHA, a associação americana de fonoaudiologia, aprender duas línguas não causa atraso nem problema de fala ou de linguagem. Crianças do mundo inteiro crescem ouvindo mais de uma língua, e o cérebro delas dá conta disso. A ASHA explica que as crianças bilíngues costumam passar pelos mesmos marcos de comunicação, no mesmo período, que as crianças que aprendem uma língua só (a página da associação, em inglês, está em asha.org).

Isso não quer dizer que toda criança bilíngue vai falar no mesmo dia que o priminho. Cada criança tem seu ritmo, com uma língua ou com duas. Quer dizer que o bilinguismo, sozinho, não explica uma fala que está muito fora do esperado. Se a comunicação preocupa, vale olhar com cuidado, e não "esperar porque é bilíngue".

Lembra que a fala é a cereja do bolo? Antes dela vêm o olhar, o gesto, a imitação, a troca de turnos. Essas bases são as mesmas em qualquer língua, e são elas que você observa primeiro.

Pai sentado no chão com o filho pequeno, olhando um livro de figuras juntos

Por que parece que ela fala menos

Algumas coisas são esperadas no bilinguismo e costumam assustar os pais sem motivo.

As palavras ficam divididas entre as línguas. Sua filha pode dizer "água" para a mãe e "milk" para o pai, e nunca o contrário. Se você contar só as palavras em português, a lista parece curta. Some as duas línguas: muitas vezes o total é bem parecido com o de qualquer criança da mesma idade.

Misturar as línguas é normal. "Mamãe, quero mais juice" não é confusão. É a criança usando todos os recursos que tem para se comunicar. Adultos bilíngues também fazem isso. Com o tempo, ela vai percebendo com quem usar cada língua.

Pode haver um período mais quieto. Quando a criança entra em contato com uma língua nova (na escola, depois de uma mudança de país), é comum ela passar um tempo mais ouvindo do que falando naquela língua. Ela está guardando o som, a melodia e as palavras. O importante é que ela siga se comunicando bem na língua de casa.

Uma língua pode ficar mais forte que a outra. É a língua que ela ouve mais, em mais situações, com mais gente. Isso muda ao longo da vida, e está tudo bem.

Como contar as palavras de uma criança bilíngue

Na hora de acompanhar o vocabulário, faça assim:

  1. Anote as palavras das duas línguas, do jeitinho que ela fala. "Aba" querendo dizer água conta. "Au-au" com sentido também conta.
  2. Conte o conceito uma vez só no total, mas valorize que ela sabe o nome nas duas línguas. "Água" e "water" são a mesma ideia; saber as duas é um ganho.
  3. Peça ajuda de quem fala a outra língua (o pai, a avó, a professora) para não deixar palavras de fora.
  4. Repita todo mês para ver o vocabulário crescer.

A ferramenta grátis Primeiras palavras do meu filho ajuda nisso: você marca as palavras que a criança já diz, do jeitinho dela, e ganha um cartão para guardar. Use o campo de outras palavras para incluir as da segunda língua.

Para ter uma referência do que costuma aparecer em cada fase, veja o nosso post sobre marcos da fala por idade, com as faixas do CDC. São faixas, não provas: servem para orientar o olhar, não para dar nota.

O que fazer em casa para estimular a fala nas duas línguas

O que estimula a fala em português é o mesmo que estimula em qualquer língua. A diferença é organizar a casa para que as duas línguas tenham espaço.

Fale com seu filho na língua em que você se sente à vontade. É nela que você brinca, canta, faz carinho e conta história com naturalidade. Se você não é fluente em inglês, não precisa forçar o inglês em casa para "adiantar" a escola. Uma conversa rica em português vale mais do que frases soltas e travadas em outra língua.

Use a palavra inteira e correta, em qualquer língua. Nada de diminutivo nem de repetir o "errado bonitinho". Na altura da criança, olho no olho, devagar e animado.

Dê significado a toda tentativa. Se ela disser "bá" apontando a bola, devolva: "Bola! Você quer a bola". Se misturar as línguas, não corrija com "não é assim que fala". Devolva a palavra na sua língua, com naturalidade: "Ah, você quer suco! Vou pegar o suco".

Crie oportunidades para ela pedir. Brinquedo favorito à vista e fora do alcance, perguntas com opções ("água ou suco?", "agua o jugo?"), e o silêncio depois da pergunta. O silêncio vale mais que palavras: é nele que a criança encontra espaço para responder.

Deixe cada língua ter seus momentos. Muitas famílias acham mais fácil organizar assim: cada adulto fala a sua língua, ou uma língua em casa e outra fora. Não existe um jeito único certo. O que ajuda é a criança ouvir as duas línguas em situações reais e afetivas, não só em aula ou em vídeo.

Use a rotina como palco. Banho, troca, refeição e passeio são ótimos para repetir as mesmas palavras todo dia, em cada língua. Quem enjoa da repetição é a gente.

Cante e leia nas duas línguas. Músicas com gestos da infância de cada adulto, o mesmo livro por vários dias. A criança aprende a melodia de cada língua brincando.

Desenho em outra língua não substitui gente. Vídeo pode até apresentar sons novos, mas quem ensina a conversar é a pessoa que espera, responde e brinca junto. Se quiser ideias para esse tempo no chão, veja como brincar com criança pequena para estimular a fala.

Mãe e filha na mesa da cozinha preparando frutas juntas, conversando

Devo parar de falar uma das línguas se a fala demorar?

Essa é uma pergunta que muitos pais fazem, às vezes depois de ouvir esse conselho de alguém. A ASHA orienta que não é preciso abandonar a língua de casa, mesmo quando a criança tem dificuldade de linguagem. Tirar a língua da família pode tirar também a conversa mais rica e afetiva que a criança tem.

Cada caso é um caso, e essa decisão deve ser conversada com o fonoaudiólogo que acompanha a criança, olhando a família e a rotina de vocês. O que não ajuda é decidir sozinho, no susto, cortar a língua do pai ou da avó.

Quando procurar ajuda

O bilinguismo não deve ser motivo para esperar. Procure um fonoaudiólogo (e converse com o pediatra) se você perceber, por exemplo:

  • a criança não se comunica bem em nenhuma das línguas, inclusive a de casa;
  • ela usa pouco o olhar, o gesto e o apontar para mostrar e pedir coisas;
  • ela não parece entender o que é dito na língua que mais ouve;
  • ela perdeu palavras ou habilidades que já tinha;
  • ela não responde quando é chamada (vale checar a audição; veja como saber se o bebê está ouvindo bem);
  • a fala está bem fora das faixas esperadas para a idade, mesmo somando as duas línguas.

Na avaliação, conte ao profissional quais línguas a criança ouve, com quem e em que momentos. A ASHA recomenda que a criança bilíngue seja avaliada considerando as duas línguas, e não só uma delas. Isso evita tanto o alarme falso quanto a espera desnecessária. Quem avalia é o profissional; a sua observação em casa é a melhor ajuda que ele pode ter.

Um próximo passo para hoje

Pegue papel e caneta (ou o celular) e anote, com quem fala a outra língua, todas as palavras que seu filho já usa, nas duas línguas. Depois escolha um momento da rotina, o banho ou o lanche, para conversar com calma na sua língua, esperando ele responder. Duas línguas são um presente. O que faz a fala crescer, em qualquer uma delas, é você ali do lado, na altura dele.

No curso Cultiva Fala, a Brígida mostra, fase a fase, como criar essas oportunidades de comunicação na rotina, do jeito que funciona em qualquer língua.

Brígida Maris, fonoaudióloga

Quem escreve

Brígida Maris é fonoaudióloga formada pela UFMG, especialista em Linguagem e mestre em Neurociências. Criou o Cultiva Fala para ajudar famílias a estimular a fala em casa, no dia a dia.

@brigidamaris_

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