Criança que não sabe dizer onde dói: como ajudar em casa
- Linguagem
- Rotina
- Quando procurar ajuda

Seu filho está mais choroso, não quer comer, acordou várias vezes à noite. Você pergunta "onde dói?" e ele não responde, ou aponta para tudo. Quando a criança não sabe dizer onde dói, a família fica no escuro, e a preocupação cresce.
Isso é muito comum. Dizer "dói aqui" exige muita coisa ao mesmo tempo: perceber a sensação, saber o nome dela, saber o nome da parte do corpo e conseguir juntar tudo numa frase. Crianças pequenas ainda estão aprendendo cada pedaço. Muitas crianças autistas, ou que ainda não falam, também comunicam a dor de outro jeito. A boa notícia: dá para ir construindo esse caminho em casa, no dia a dia, antes de a dor aparecer.
Por que a criança não sabe dizer onde dói
Antes de falar "dói", a criança precisa ter a palavra guardada, e só guarda o que ouviu muitas vezes, em situações reais. A gente costuma nomear o nariz e a barriga na brincadeira, mas quase nunca nomeia sensações: "tá quente", "apertou", "machucou".
Por isso, em vez de responder, muitas crianças mostram com o corpo: ficam irritadas, mais agitadas ou quietas demais, puxam a orelha, recusam a comida, querem colo o tempo todo. Esse comportamento também é comunicação. Quem conhece a criança percebe que ela "não está como costuma ficar", e essa informação vale muito, inclusive para o pediatra.
Passo a passo para ensinar a criança a mostrar a dor
Faça isso nos dias tranquilos, sem dor nenhuma. É no dia comum que a criança aprende; na hora do incômodo, ela só usa o que já conhece.
- Nomeie as partes do corpo na rotina. No banho e na troca de roupa, devagar e com a palavra inteira: "o pé", "a barriga", "a orelha". Toque junto enquanto fala. Serve desde o primeiro ano.
- Dê nome às pequenas dores do dia. Bateu o joelho? Agache na altura dela e diga: "Bateu o joelho. Dói. Dói aqui", tocando o lugar. Frase curta, sempre as mesmas palavras.
- Use sempre o mesmo gesto para "dói". Por exemplo, a mão aberta sobre o lugar. Gesto não atrapalha a fala: ele ajuda a criança a entender e, depois, a pedir. Mais sobre isso em comunicação alternativa atrapalha a fala?.
- Brinque de médico com a boneca ou o ursinho. "Ai, o urso machucou a barriga! Dói aqui." Depois inverta: deixe a criança "examinar" e espere ela mostrar onde dói no bichinho. O silêncio cria a oportunidade.
- Ofereça opções em vez de pergunta aberta. "Onde dói?" é difícil. Tente: "Dói a barriga ou a orelha?", tocando cada lugar. Para quem fala pouco, escolher é mais fácil que inventar a resposta.
- Para quem ainda não fala ou fala pouco, use figuras. Uma figura simples do corpo, ou de um rosto "tudo bem" e um rosto "dói", deixa a criança apontar. Combine o uso com o fonoaudiólogo que acompanha seu filho, se ele já tiver um.
- Comemore quando ela avisar, de qualquer jeito. Se ela pôs a mão na orelha e resmungou, devolva com a palavra: "Dói a orelha! Obrigada por me mostrar." Nada de "fala direito".
Esse mesmo caminho serve para outras sensações: "tá alto", "tô cansado", "quero parar". Contamos mais em como ensinar a criança a falar o que sente.

O que observar quando a criança muda de comportamento
Quando seu filho não consegue contar, observe e anote. Não é para descobrir o que ele tem (isso é trabalho do médico), é para levar informação boa para a consulta:
- O que mudou: sono, apetite, choro, agitação, vontade de brincar.
- Desde quando e se piora em algum momento (ao deitar, ao comer, ao fazer cocô).
- Gestos repetidos: mão na orelha, na barriga, na boca; recusar mastigar de um lado.
- O que acalma e o que piora: colo, posição, comida morna.
Lembre-se: uma mudança de comportamento numa criança autista não é, automaticamente, "do autismo". Ela também tem otite, dor de dente, prisão de ventre. Na dúvida, leve ao pediatra. Se a preocupação for com a orelha e a audição, veja também como saber se o bebê está ouvindo bem.
Como preparar a criança e o médico para a consulta
A consulta fica mais leve quando ninguém começa do zero.
Com a criança, antes de sair de casa:
- Conte o que vai acontecer, com frases curtas: "Vamos no médico. Ele vai olhar a orelha. Depois, casa."
- Para quem gosta de previsibilidade, monte a sequência com figuras: carro, médico, casa. O Quadro de rotina para imprimir ajuda a montar cartões com figuras.
- Na brincadeira de médico dos dias anteriores, mostre o "aparelho de ouvir o coração" e deixe a criança encostar no ursinho.
Com o médico, leve um resumo curto (pode ser no celular):
- Como seu filho se comunica: fala frases, fala palavras soltas, usa gesto ou figuras.
- Como ele costuma reagir à dor e o que mudou agora.
- O que costuma funcionar: exame no colo, mostrar o instrumento antes de encostar, falar baixo, uma pessoa falando por vez.
- O que costuma piorar: barulho, muita gente, ser tocado sem aviso.
Você não está ensinando o médico a trabalhar. Está oferecendo o que só a família sabe: como chegar melhor até o seu filho. E, se algo funcionou bem, vale pedir para registrar no prontuário, para a próxima consulta.

Quando procurar ajuda
- Para a dor ou a mudança de comportamento: procure o pediatra. Se a criança parecer muito abatida, diferente do habitual de um jeito que assusta você, ou se você tiver dúvida, não espere: procure atendimento.
- Para a comunicação: se seu filho já passou da idade em que costuma apontar, usar gestos ou dizer as primeiras palavras e ainda não faz isso, ou se você sente que ele não tem nenhum jeito de avisar o que quer e o que sente, vale uma avaliação com o fonoaudiólogo. As idades de referência estão em marcos da fala por idade, sempre lembrando que cada criança tem seu ritmo.
As dicas deste texto estimulam a comunicação; não substituem a avaliação nem a terapia.
Para começar hoje
Escolha um momento do dia, o banho por exemplo, e nomeie três partes do corpo tocando cada uma: "o pé, a barriga, a orelha". Amanhã, repita. Quem enjoa da repetição é a gente; a criança aprende justamente assim. Quando a próxima dor chegar, ela vai ter um pouquinho mais de caminho para mostrar a você onde é.
No curso Cultiva Fala, a Brígida mostra como nomear, esperar e dar significado em cada fase do desenvolvimento, com as brincadeiras demonstradas na prática.

Quem escreve
Brígida Maris é fonoaudióloga formada pela UFMG, especialista em Linguagem e mestre em Neurociências. Criou o Cultiva Fala para ajudar famílias a estimular a fala em casa, no dia a dia.
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