Cultiva Fala — Estimulação da Linguagem Infantil
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Como brincar com criança pequena para estimular a fala

Brígida Maris, fonoaudióloga5 min de leitura
  • Brincadeiras
  • Fala
  • Desenvolvimento

Você senta no tapete, espalha os brinquedos e, cinco minutos depois, está no celular enquanto seu filho empilha blocos sozinho. Acontece em quase toda casa. E a boa notícia é que saber como brincar com criança pequena para estimular a fala não depende de brinquedo novo nem de ideia mirabolante: depende de como você entra na brincadeira.

Brincar é onde a criança mais conversa, mesmo antes de falar. Ela olha, aponta, imita, espera a sua vez, ri junto. É ali que a linguagem cresce. A fala é a cereja do bolo; o brincar junto é o bolo.

Brincar junto é diferente de brincar ao lado

Quando o adulto fica ao lado, a criança brinca. Quando o adulto brinca junto, a criança se comunica.

Brincar junto é estar de frente para ela, na altura dos olhos, com a atenção na mesma coisa que ela está olhando. Não é dirigir a brincadeira, não é dar aula. É entrar no que ela escolheu e transformar aquilo numa troca: ela faz, você espera, você responde.

A Academia Americana de Pediatria (AAP), no documento The Power of Play (2018), recomenda que pediatras incentivem as famílias a brincar com os filhos justamente porque é na brincadeira compartilhada que a criança desenvolve linguagem, atenção e vínculo. Não é tempo perdido: é o melhor tempo do dia para a fala.

Mãe e filho pequeno sentados no tapete, frente a frente, brincando com blocos coloridos

O brincar muda com a idade (e você acompanha)

O jeito de brincar vai mudando, e saber em que fase seu filho está ajuda a entrar do jeito certo. As idades abaixo são faixas aproximadas, inspiradas nos marcos do CDC ("Learn the Signs. Act Early."). Cada criança tem seu ritmo.

FaseO que a criança costuma fazerComo você entra
Explorar (primeiro ano)Leva à boca, bate, joga, sacodeImite o que ela faz e nomeie: "bate, bate!", "caiu!"
Usar do jeito certo (por volta de 1 ano e meio)Empurra o carrinho, leva o copo à boca, imita tarefas da casaBrinque do mesmo jeito e acrescente uma palavra: "carro vai… vruuum!"
Faz de conta (por volta dos 2 anos)Dá comidinha para a boneca, finge que fala ao telefoneEntre no papel: "a boneca está com fome? Ela quer banana ou pão?"

Segundo o CDC, por volta de 18 meses é esperado que a criança brinque de forma simples com os brinquedos, como empurrar um carrinho, e imite tarefas da casa; por volta dos 2 anos, que brinque com mais de um brinquedo ao mesmo tempo, como colocar comidinha num pratinho. O faz de conta é uma ponte direta para a linguagem: quem finge que a banana é telefone já entende que uma coisa pode representar outra, e é exatamente isso que uma palavra faz.

Como entrar na brincadeira, passo a passo

  1. Sente no chão, na altura dos olhos dela. Ela precisa ver o seu rosto e a sua boca. Do sofá, você assiste; do chão, você brinca.
  2. Deixe ela escolher o brinquedo. A atenção dela já está ali. Puxar para outra coisa gasta a energia que iria para a comunicação.
  3. Imite o que ela faz. Ela bate o bloco, você bate o bloco. Ela ri, você ri. Imitar mostra que você está junto, e criança que não imita não fala: a imitação é a porta de entrada.
  4. Fale pouco, com palavra inteira e animada. Em vez de uma frase comprida, diga "bola!", "rolou!", "mais?". Devagar, com entonação, sem diminutivo.
  5. Pare e espere. Depois de rolar a bola três vezes, segure e olhe para ela, em silêncio. O silêncio vale mais que palavras: é ele que cria a vontade de pedir, com olhar, gesto, som ou palavra.
  6. Dê significado a qualquer tentativa. Ela estendeu a mão e disse "bã"? "Bola! Você quer a bola. Toma a bola." Sem "fala direito", sem "fala, fala".
  7. Repita a mesma brincadeira. Quem enjoa da repetição é a gente. Para a criança, repetir é o que permite prever, participar e, um dia, falar a parte dela.

Os dois erros mais comuns (e o que fazer no lugar)

Narrar tudo. "Agora você pegou o carro azul, olha, ele está indo para a garagem, e agora vai virar…" Com tanto texto, não sobra espaço para a criança. Troque por frases curtas e pausas.

Perguntar o tempo todo. "Que cor é essa? Que bicho é esse? Como faz o cachorro?" Parece estímulo, mas vira prova. Troque a pergunta pelo comentário: em vez de "o que é isso?", diga "olha, o cachorro! Au, au!". E, quando perguntar, ofereça opções: "carro ou bola?".

Não precisa de brinquedo caro. Panela e colher, caixa de papelão, bolha de sabão, potes que encaixam e um livro de figuras rendem semanas de brincadeira. Deixe poucos brinquedos à disposição e guarde o resto à vista, mas fora do alcance, para ela pedir.

Se quiser ver como estão os hábitos da sua casa no brincar, no falar e no responder, faça o Checklist Cultiva Fala: em 3 minutos você descobre as três mudanças que mais valem a pena agora.

Quando procurar ajuda

Cada criança brinca do seu jeito, e tudo bem preferir carrinho a boneca. Vale conversar com o pediatra ou com um fonoaudiólogo se você perceber que seu filho, depois de 1 ano e meio, quase não imita, não aponta para mostrar coisas, não se interessa em brincar com você ou ainda não mostra nenhuma brincadeira de faz de conta por volta dos 2 anos e meio. Não é motivo para pânico: é motivo para uma avaliação, que é o jeito mais rápido de tirar a dúvida.

Para começar hoje

Escolha um momento do dia, desligue o celular e sente no chão por 20 minutos. Deixe seu filho escolher, imite, fale pouco e espere. Você é a pessoa mais importante nesse processo, e a brincadeira mais simples, feita junto, já é estímulo de verdade.

No curso, a Brígida mostra brincadeiras para cada fase do desenvolvimento, com os brinquedos na mão, para você saber exatamente o que fazer em cada etapa.

Brígida Maris, fonoaudióloga

Quem escreve

Brígida Maris é fonoaudióloga formada pela UFMG, especialista em Linguagem e mestre em Neurociências. Criou o Cultiva Fala para ajudar famílias a estimular a fala em casa, no dia a dia.

@brigidamaris_

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