Cultiva Fala — Estimulação da Linguagem Infantil
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Como ensinar a criança a esperar (sem grito e sem sermão)

Brígida Maris, fonoaudióloga8 min de leitura
  • Linguagem
  • Rotina
  • Brincadeiras

Você diz "espera um pouquinho" e, dois segundos depois, seu filho já está chorando, puxando sua mão ou se jogando no chão. Parece falta de paciência, mas muitas vezes é outra coisa: ele ainda não entendeu o que "esperar" quer dizer. A boa notícia é que dá para ensinar a criança a esperar, e o caminho passa pela linguagem, no dia a dia, sem grito e sem sermão.

Por que esperar é tão difícil para a criança pequena

Para nós, "espera", "já já" e "depois" são palavras óbvias. Para uma criança de 1, 2 ou 3 anos, são palavras abstratas: não dá para ver, pegar nem apontar. Ela ainda está aprendendo o concreto, como "bola", "água", "mamãe", e o tempo é uma das últimas coisas que a linguagem organiza.

Então, quando ouve "espera", a criança pequena muitas vezes entende só a parte que dói: "não vou ter agora". Ela não sabe se vai ter depois, quando, nem o que fazer enquanto isso. O choro é a forma que ela tem de dizer "eu não entendi e estou frustrado".

Por isso, ensinar a esperar não é ensinar a ficar quieto. É tornar a espera visível e previsível, e dar à criança um jeito de comunicar o que sente enquanto espera.

Mãe e filho pequeno sentados no chão, ela segurando o pote de bolhas de sabão e esperando o momento de soprar

Como ensinar a criança a esperar: 7 passos para fazer em casa

1. Mostre a espera com o corpo

Para que idade: a partir de 1 ano.

O que fazer: sempre que disser "espera", faça o mesmo gesto, por exemplo a mão aberta à frente, com calma. Abaixe-se na altura dos olhos da criança para ela ver seu rosto e sua boca. Gesto não atrapalha a fala: ele ajuda a criança a entender a palavra que ainda é difícil.

O que dizer: "Espeeera." (devagar, prolongando a palavra)

O que observar: se, com o tempo, ela começa a imitar o gesto ou a olhar para você quando ouve a palavra.

2. Troque "espera" por "primeiro… depois…"

Para que idade: a partir de uns 2 anos, quando a criança já entende frases curtas.

O que fazer: em vez de só "espera", diga o que vem antes e o que vem depois. A criança passa a saber que vai ter, só não agora. Use frases curtas: lembre que a criança pequena dá conta de uma ordem por vez.

O que dizer: "Primeiro banho, depois a história." · "Primeiro a mamãe guarda a panela, depois brinca com você."

O que observar: se ela começa a repetir "depois" ou a completar a frase com você ("Primeiro banho, depois…").

3. Treine a vez brincando

Para que idade: de 1 a 6 anos, ajustando a brincadeira.

O que fazer: a espera se aprende melhor na brincadeira, quando está gostoso, do que na fila do supermercado. Algumas ideias:

  • "1, 2, 3 e… já!" com bolha de sabão, carrinho na rampa ou o balanço: você conta, para um instante e espera ela completar o "já" (com palavra, som ou olhar).
  • Bola rolando: "Minha vez" (você rola), "sua vez" (ela rola). Troca de turnos é a base da conversa.
  • Batata quente e jogos de tabuleiro simples para os maiores, que já aguentam esperar a vez dos outros.

O que dizer: "Agora é a vez do papai. Agora é a sua vez!"

O que observar: se ela consegue esperar um pouquinho mais a cada semana, e se espera olhando para você, que é um ótimo sinal de comunicação.

4. Comece com esperas curtinhas (e cumpra)

Para que idade: todas.

O que fazer: no começo, peça esperas bem curtas, em momentos em que ela está descansada e alimentada. E cumpra o que disse: se falou "depois do banho tem história", tenha a história depois do banho. É isso que ensina a criança a confiar na palavra "depois".

Se o que ela quer não vai acontecer, diga com clareza, em vez de "espera" ou "já já": "Acabou o biscoito. Agora tem banana ou maçã?"

O que observar: se as esperas curtas ficam mais tranquilas antes de você pedir esperas maiores.

5. Dê algo para fazer durante a espera

Para que idade: a partir de 1 ano.

O que fazer: esperar de braços cruzados é difícil até para adulto. Ofereça uma ocupação: cantar uma música com gestos, contar os carros vermelhos na rua, procurar coisas na sala ("cadê o gato?"), ajudar a mexer a massa enquanto o jantar fica pronto.

O que dizer: "Enquanto a comida esfria, vamos cantar a música do sapo?"

O que observar: quais atividades acalmam mais o seu filho. Elas viram o seu "kit de espera".

6. Deixe o tempo à vista

Para que idade: a partir de uns 2 anos.

O que fazer: como o tempo não se vê, mostre. Uma ampulheta, uma música que tem começo e fim ("quando a música acabar, é sua vez") ou um quadro de rotina com figuras ajudam a criança a enxergar o que vem depois. Se quiser montar um, o Quadro de rotina para imprimir é grátis: você escolhe as atividades do dia, arruma a ordem e imprime os cartões com figuras.

O que dizer: apontando para a figura: "Agora almoço. Depois, soneca."

O que observar: cada criança reage de um jeito. Para uma, a ampulheta acalma; para outra, vira mais uma pressão. Fique com o que ajuda o seu filho.

Quadro de rotina com cartões de figuras na porta da geladeira e uma ampulheta sobre a mesa da cozinha

7. Dê nome à frustração e ensine a pedir

Para que idade: todas, com palavras diferentes em cada fase.

O que fazer: esperar dá raiva, e tudo bem. Nomeie o que ela parece sentir, sem mudar o combinado. E ensine um jeito de dizer que está difícil: uma palavra, um gesto ou uma figura para "ajuda", "quero agora" ou "não gostei". Quando a criança tem como dizer, precisa menos do choro para avisar.

O que dizer: "Você queria agora e ficou bravo. É difícil esperar. Depois do banho, a gente brinca."

O que observar: se, aos poucos, ela troca parte do choro por um gesto ou uma palavra. Isso é comunicação crescendo.

Os tropeços mais comuns (e como ajustar)

Todo mundo cai em algum deles, principalmente no fim de um dia cansativo. Dá para mudar aos poucos:

  • O "já já" que nunca chega. Se o "depois" às vezes não acontece, a criança aprende que esperar não adianta. Prefira dizer quando, ou dizer que acabou.
  • A explicação comprida. Na hora da frustração, frase longa não entra. Poucas palavras, gesto e calma.
  • Ceder quando o choro aumenta. Olhe o que vem antes e depois do choro: se o que ela queria sempre chega quando chora mais alto, o choro vira o jeito de pedir. Acolher o sentimento é diferente de mudar o combinado.
  • Pedir espera longa demais, cedo demais. Comece pequeno e vá aumentando.

Se você quiser entender melhor como dar limites com a linguagem que a criança pequena entende, este post ajuda: Criança não obedece: como dar limites sem bater.

E a criança autista ou com outras necessidades?

Os mesmos passos servem, muitas vezes com ainda mais apoio visual: figuras de "agora" e "depois", rotina visual e avisos antes das mudanças. Mudar de planos sem aviso costuma pesar mais, então antecipe sempre que puder ("Hoje o parque está fechado. Vamos para a casa da vovó.").

Se seu filho faz terapia, combine com a equipe que o acompanha quais figuras e gestos usar, para que a casa e a terapia falem a mesma língua. O que você faz em casa é apoio à terapia, nunca substituto. Sobre gesto e figuras, vale ler também Comunicação alternativa atrapalha a fala da criança?.

Quando procurar ajuda

Dificuldade para esperar é muito comum na primeira infância e costuma melhorar à medida que a linguagem cresce. Vale conversar com o pediatra ou com um fonoaudiólogo se:

  • as reações são muito intensas e frequentes, a ponto de atrapalhar a rotina da família ou a escola;
  • a criança parece não entender frases simples do dia a dia para a idade dela;
  • ela ainda não tem nenhum jeito de pedir (nem palavra, nem gesto, nem apontar);
  • você sente que algo não vai bem, mesmo sem saber explicar.

Quem avalia é o profissional. Procurar ajuda não é exagero: é cuidado.

Para começar hoje

Escolha um momento do dia, como o banho ou o jantar, e use o "primeiro… depois…" com o gesto de espera, sempre igual, por uma semana. Repita sem medo: quem enjoa da repetição é a gente. Você é a pessoa mais importante nesse processo, e pequenas mudanças já fazem diferença.

No curso Cultiva Fala, a Brígida mostra, fase a fase, brincadeiras de troca de turnos como essas, com os brinquedos na mão.

Brígida Maris, fonoaudióloga

Quem escreve

Brígida Maris é fonoaudióloga formada pela UFMG, especialista em Linguagem e mestre em Neurociências. Criou o Cultiva Fala para ajudar famílias a estimular a fala em casa, no dia a dia.

@brigidamaris_

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