Passeio na praça: brincadeiras ao ar livre que estimulam a fala
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O cachorro do vizinho passa, e seu filho aponta, pula, grita "au!". A formiga carrega uma folha, e ele fica parado olhando. Lá fora, a criança encontra o tempo todo coisas que ela quer contar. Por isso as brincadeiras ao ar livre para estimular a fala estão entre as mais simples e mais ricas que existem: não precisam de brinquedo, só de você junto.
A Sociedade Brasileira de Pediatria tem até um manual de orientação dedicado aos benefícios da natureza no desenvolvimento de crianças e adolescentes. Aqui vou mostrar o lado que é o meu: como transformar o passeio em conversa.
Por que a natureza é um ótimo assunto para a fala
Fala nasce de vontade de comunicar. E vontade aparece quando algo chama a atenção da criança: um bicho que se mexe, um barulho de passarinho, a água que espirra. Lá fora, isso acontece a cada minuto.
E tem mais um ganho: os sons dos bichos ("au-au", "miau", "piu", "muuu") estão entre as primeiras palavras de muitas crianças. São curtos, divertidos e fáceis de imitar. Imitar é a base: criança que não imita não fala.
7 brincadeiras para fazer no passeio
1. Cadê o bicho? (a partir de 1 ano)
O que fazer: procure bichos junto com a criança: passarinho, formiga, cachorro, borboleta, gato no muro. O que dizer: "Olha! Um passarinho. O passarinho faz piu-piu." Depois, na próxima vez, aponte e espere: "O passarinho faz…" e pare. O que observar: se ela olha para onde você aponta, se aponta de volta, se tenta imitar o som. Tudo isso já é comunicação.
2. Sons do lado de fora (a partir de 1 ano)
O que fazer: pare, faça "shhh" e coloque a mão na orelha. Escutem juntos. O que dizer: "Escutou? O cachorro! Au-au." "O vento: fffff." O que observar: se ela vira a cabeça para o som. Isso ajuda a perceber também a atenção ao que se ouve.
3. Mais e acabou (a partir de 1 ano)
O que fazer: no balanço ou no escorregador, empurre uma vez e pare. Espere ela pedir, com gesto, olhar ou palavra. O que dizer: "Mais?" (com o gesto de mais). Quando for embora: "Acabou o balanço. Tchau, balanço!" O que observar: como ela pede. Dê significado a qualquer tentativa: se ela disse "ma", devolva "mais! Mais balanço!".

4. Caça às folhas (a partir de 2 anos)
O que fazer: juntem folhas, pedrinhas e gravetos num saquinho. Depois, separem: as grandes e as pequenas, as verdes e as secas. O que dizer: "Essa folha é grande. Essa é pequenininha." "Escuta: a folha seca faz crec, crec!" O que observar: se ela começa a usar palavras de tamanho e de som. Cores podem entrar por volta dos 3 anos, sempre ligadas a algo: "a folha verde", "o sol amarelo".
5. Onde está? (a partir de 2 anos)
O que fazer: esconda uma pedrinha ou um brinquedo pequeno embaixo de uma folha, atrás da árvore, em cima do banco. O que dizer: "Cadê a pedrinha? Está embaixo da folha!" Use sempre a mesma palavra para cada lugar. O que observar: se ela entende "embaixo", "em cima", "dentro". Palavras de lugar são muito úteis nessa fase.
6. O que o bicho está fazendo? (a partir de 3 anos)
O que fazer: observem um bicho por um tempo, sem pressa: a formiga levando a folha, o pombo comendo, o cachorro correndo. O que dizer: em vez de "o que é isso?", diga o que acontece: "A formiga está carregando a folha. Pesada!" Depois, pergunte com opções: "Ela vai para a casa dela ou para a árvore?". O que observar: se ela começa a juntar palavras ("formiga carrega", "cachorro corre"). Devolva a frase um pouco maior: "Isso, a formiga carrega a folha!".
7. Contar o passeio em casa (a partir de 3 anos)
O que fazer: em casa, no banho ou no jantar, relembrem o passeio. Se tiver um livro com bichos, abra na página do bicho que vocês viram. O que dizer: "Hoje a gente viu… o cachorro! E ele fez…" e espere. Para os maiores, de 4 a 6 anos: "Qual foi a parte mais legal?" O que observar: se ela consegue contar uma coisa que aconteceu. Contar o que viveu é um passo grande da linguagem.
Do livro para a praça (e de volta)
Livro de bichos e passeio combinam muito. O livro apresenta o tuiuiú, a onça, o sapo; o passeio mostra o passarinho e a formiga de verdade. Uma ideia que funciona bem:
- Leia o mesmo livro de bichos por vários dias. Quem enjoa da repetição é a gente. A criança, com a repetição, começa a completar as falas.
- Aponte e espere. Antes de dizer o nome do bicho, aponte e dê tempo para ela falar ou fazer o som.
- Ligue com o que vocês viram. "Esse é um passarinho, igual ao da praça! Piu-piu."
Se você quiser acompanhar as palavras que estão aparecendo, como "au-au", "piu" e "água", dá para registrar no Primeiras palavras do meu filho e guardar o cartão.
Dicas para o passeio dar certo
- Deixe o celular no bolso. Brincar com a criança, e não ao lado dela, é o que faz a diferença. Para entender melhor essa diferença, veja como brincar com criança pequena para estimular a fala.
- Vá no ritmo dela. Se ela quer olhar a mesma formiga por cinco minutos, ótimo: é atenção compartilhada acontecendo.
- Não precisa ser parque. Quintal, calçada, varanda com vaso de planta, janela com vista para a rua: tudo vale.
- Não transforme em aula. Nada de "fala, fala: qual é o nome?". Brinque, dê nome e espere. A fala vem da vontade, não da cobrança.
Quando procurar ajuda
Cada criança tem seu ritmo. Mas vale conversar com um fonoaudiólogo (e com o pediatra) se você percebe que, por volta de 1 ano e meio, ela ainda não aponta para mostrar as coisas, não olha para onde você aponta ou não tenta imitar sons e gestos; ou se, por volta dos 2 anos, ela ainda fala muito pouco. Se ela também não vira a cabeça para os sons do passeio, a audição merece uma conferida. Quem avalia é o profissional.
Para começar hoje
No próximo passeio, mesmo que seja até a padaria, escolha uma coisa só: parar quando ela apontar, dar o nome e esperar. Pode ser o cachorro, o ônibus ou a árvore. É assim que a fala vai sendo plantada, um passeio de cada vez.
No Cultiva Fala, a Brígida mostra brincadeiras como essas para cada fase, do bebê aos 6 anos, com demonstrações de como falar e quando esperar.

Quem escreve
Brígida Maris é fonoaudióloga formada pela UFMG, especialista em Linguagem e mestre em Neurociências. Criou o Cultiva Fala para ajudar famílias a estimular a fala em casa, no dia a dia.
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