Comunicação alternativa atrapalha a fala da criança?
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O fonoaudiólogo sugeriu usar figuras, gestos ou uma prancha de comunicação com seu filho, e bateu a dúvida: "se ele pode apontar para a figura, por que vai querer falar?". Essa é uma das perguntas que mais escuto. A pergunta por trás de "comunicação alternativa atrapalha a fala da criança?" é de quem ama e quer ver o filho falando, e ela merece uma resposta clara.
Outubro é o mês internacional de conscientização sobre a Comunicação Aumentativa e Alternativa, a CAA. Bom momento para tirar esse medo da frente.
O que é comunicação alternativa, em palavras simples
Comunicação Aumentativa e Alternativa é qualquer recurso que ajuda a criança a se expressar além da fala ou enquanto a fala não vem: gestos, sinais, figuras, fotos, pranchas com símbolos, cartões de rotina, aplicativos de comunicação.
"Aumentativa" porque soma à fala que já existe. "Alternativa" porque oferece outro caminho quando a fala ainda não dá conta. Ela é usada com crianças autistas, mas também com crianças com atraso de linguagem, síndromes, alterações motoras da fala e outras condições. Quem indica e escolhe o recurso é o fonoaudiólogo, de acordo com cada criança.
E vale lembrar: você já usa comunicação aumentativa todos os dias. Dar tchau, mandar beijo, apontar, fazer "shhh" com o dedo na boca. Gesto não atrapalha a fala; gesto é linguagem.
Atrapalha ou ajuda? O que dizem as associações
A ASHA, associação americana de fonoaudiologia, é direta sobre esse mito: segundo a entidade, usar CAA não impede a criança de falar, e as pesquisas mostram que ela pode até ajudar no desenvolvimento da fala. Revisões de estudos com crianças autistas apontam na mesma direção: a comunicação alternativa não reduz a fala e, em muitos casos, aparece junto com aumento das produções orais.
Por que isso faz sentido? Porque a criança só aprende a falar quando descobre que comunicar funciona. Quando ela aponta para a figura do suco e recebe o suco, aprende que sua mensagem muda o mundo. Isso dá vontade de comunicar mais, e a fala vem como mais um jeito de fazer isso.
O contrário também é verdade: a criança que não consegue se fazer entender se frustra, chora, grita, desiste. Esperar a fala aparecer para só então oferecer outro caminho pode deixar a criança muito tempo sem voz. A fala é a cereja do bolo; a comunicação é o bolo, e ela não precisa esperar.

Como a família pode usar em casa
A CAA funciona de verdade quando sai da sala de terapia e entra na rotina. É aí que você, mãe, pai, avó, faz toda a diferença. Combine com o fonoaudiólogo do seu filho o recurso certo e use estas ideias no dia a dia:
- Fale e mostre ao mesmo tempo. Ao dizer "água", aponte para a figura da água ou faça o gesto. A criança aprende vendo você usar, do mesmo jeito que aprende a falar ouvindo você falar.
- Use a palavra inteira, devagar e olhando para ela. A figura não substitui a sua voz; ela acompanha. Fique na altura dos olhos para que ela veja o seu rosto e o recurso.
- Vá além dos pedidos. Não use só "quero" e "biscoito". Mostre também "acabou", "mais", "olha", "não", "caiu", "de novo". Comunicar é também comentar, recusar e chamar para brincar.
- Espalhe pela rotina. No banho: "água", "sabão", "pé", "acabou". Na refeição: "mais", "quero", "não quero". Na brincadeira: "de novo", "vai", "para".
- Espere a vez dela. Mostrou o gesto ou a figura? Pare e espere. O silêncio cria a oportunidade de ela responder do jeito que conseguir.
- Comemore qualquer forma de comunicar. Apontou, fez o gesto, falou um pedacinho da palavra? Tudo vale. Responda na hora e devolva a palavra certa: "Mais! Você quer mais. Toma mais."
- Deixe o recurso sempre por perto. Se a prancha fica guardada na gaveta, a voz da criança fica guardada também.
Rotina visual: o primeiro passo mais simples
Um jeito muito acessível de começar é com a rotina em figuras. Ver o que vem depois (banho, jantar, história, cama) deixa a criança mais calma e segura, e ainda oferece palavras com imagem para vocês usarem juntos. Antes de cada atividade, aponte o cartão e diga: "Agora, banho. Depois, jantar."
Se quiser montar um, o Quadro de rotina para imprimir do site é grátis: você escolhe as atividades do dia, arruma a ordem e imprime os cartões com figuras para colar na geladeira.
Quando procurar ajuda
Se seu filho fala muito pouco para a idade, não usa gestos para pedir ou mostrar, ou se frustra com frequência por não conseguir se fazer entender, converse com o pediatra e procure um fonoaudiólogo para uma avaliação. É ele quem vai dizer se a comunicação alternativa faz sentido para a sua criança, qual recurso usar e como.
Se seu filho já faz terapia, leve suas dúvidas para a próxima sessão e peça para ver como o recurso é usado. As dicas deste post e o curso são apoio para a casa: não substituem a terapia nem a orientação do profissional que acompanha a criança.
Para começar hoje
Escolha um momento da rotina, como o lanche, e use três palavras com gesto ou figura: "mais", "acabou" e "quero". Fale, mostre, espere. Pequenas mudanças já fazem diferença, e cada vez que seu filho é entendido, a comunicação dele ganha força.
No curso, a Brígida mostra como usar gesto, rotina e brincadeira para abrir caminho para a comunicação em cada fase do desenvolvimento.

Quem escreve
Brígida Maris é fonoaudióloga formada pela UFMG, especialista em Linguagem e mestre em Neurociências. Criou o Cultiva Fala para ajudar famílias a estimular a fala em casa, no dia a dia.
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- Quadro de rotina para imprimirMonte a rotina do dia com figuras, na ordem e com horários, e imprima os cartões para a geladeira.
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