Cultiva Fala — Estimulação da Linguagem Infantil
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Como ensinar a criança a falar o que sente (antes das palavras)

Brígida Maris, fonoaudióloga6 min de leitura
  • Linguagem
  • Rotina
  • Autismo

Ele está bem, brincando, e de repente se joga no chão chorando. Você tenta de tudo e não descobre o que foi. Muitas vezes, por trás desse choro, existe uma frase que a criança ainda não tem como dizer: "cansei", "tá muito barulho", "quero parar", "tô com fome". Saber como ensinar a criança a falar o que sente começa antes das palavras, e os pais podem ajudar muito em casa.

Por que sentir vem antes de saber dizer

Para dizer "estou cansado", a criança precisa de três coisas: perceber o que acontece no corpo, saber o nome daquilo e ter um jeito de contar para alguém. Isso se aprende aos poucos, ao longo da infância, e se aprende com um adulto ao lado.

Primeiro, quem ajuda a criança a se acalmar é você: o colo, a voz baixa, o ambiente mais tranquilo. Com o tempo, de tanto viver isso junto, ela vai ganhando os próprios recursos. Por isso não adianta esperar que uma criança pequena "se controle sozinha". Ela ainda está aprendendo, e você é o modelo.

Isso vale para todas as crianças. Para a criança que ainda fala pouco, e para a criança autista ou atípica, pode ser ainda mais difícil encontrar um jeito de mostrar o que sente. Os passos abaixo servem para todas e, quando há terapia, combine com o fonoaudiólogo ou a equipe que acompanha seu filho para usar as mesmas palavras e os mesmos sinais em casa.

6 passos para ajudar seu filho a dizer o que sente

1. Acalme o seu corpo primeiro

Para que idade: todas.

O que fazer: antes de falar qualquer coisa, respire, abaixe o tom de voz e desça até a altura dos olhos da criança. Num momento de choro forte, ela não consegue processar muitas palavras. Fale pouco.

O que dizer: "Tô aqui." "Vou ficar com você."

O que observar: se ela busca o seu colo ou prefere um pouco de espaço. As duas coisas são válidas.

2. Dê nome ao que ele parece sentir

Para que idade: a partir do primeiro ano, quando ele já entende muitas palavras.

O que fazer: descreva o que você vê e ofereça um nome, como um palpite, sem afirmar. A palavra chega junto com a sensação, e é assim que ela fica guardada.

O que dizer: "Você tampou os ouvidos. O barulho tá incomodando?" "Você esfregou o olho. Tá com sono?" "A torre caiu. Você ficou bravo."

O que observar: se ele confirma com o olhar, com um aceno, se para por um instante. Se não for isso, tente outro palpite com calma.

3. Ensine um gesto para "pausa", "ajuda" e "acabou"

Para que idade: a partir de 1 ano, e para qualquer criança que ainda fala pouco.

O que fazer: escolha poucos sinais simples e use sempre os mesmos, junto com a palavra. Mão espalmada para "pausa". Mãos abertas para cima para "ajuda". Mãos abanando para "acabou". Gesto não atrapalha a fala: ele dá à criança um caminho enquanto a palavra ainda está chegando.

O que dizer: fale e faça o gesto ao mesmo tempo, em momentos tranquilos: "Acabou o banho", com as mãos abanando.

O que observar: quando ele começar a usar o gesto, atenda na hora e com festa. Ele precisa ver que funciona.

Pai e criança sentados no chão, frente a frente, fazendo juntos um gesto com as mãos abertas

4. Use figuras para mostrar o que vai acontecer

Para que idade: a partir dos 2 anos, aproximadamente.

O que fazer: muita agitação vem da surpresa. Mostrar a rotina com figuras (banho, jantar, história, cama) ajuda a criança a saber o que vem depois e a se sentir mais segura. Você também pode ter uma figurinha de "pausa" e outra de "ajuda" para ela apontar.

O que dizer: "Agora é o banho. Depois, jantar." Aponte a figura enquanto fala.

O que observar: se as transições ficam mais tranquilas quando você avisa antes.

Para montar isso em poucos minutos, use o Quadro de rotina para imprimir: você escolhe as atividades do dia, arruma a ordem e imprime os cartões com figuras para colar na geladeira.

5. Ofereça escolhas que acalmam

Para que idade: a partir de 1 ano e meio.

O que fazer: quando perceber os primeiros sinais de cansaço ou incômodo, ofereça duas opções concretas, de preferência mostrando os objetos.

O que dizer: "Quer colo ou quer deitar na almofada?" "Quer água ou quer ir lá fora um pouquinho?"

O que observar: o que costuma ajudar o seu filho. Cada criança tem o seu jeito: umas se acalmam com aperto e colo, outras com silêncio, outras com movimento.

6. Converse depois, quando a calma voltar

Para que idade: a partir dos 2 anos e meio, 3 anos.

O que fazer: mais tarde, num momento bom, relembre o que aconteceu em poucas palavras, sem bronca e sem culpa. Um livro sobre sentimentos ou bonecos podem ajudar a contar de novo.

O que dizer: "Lá no mercado tinha muito barulho, né? Você ficou cansado. Da próxima vez, você pode fazer assim (gesto de pausa) que a gente sai um pouquinho."

O que observar: se ele começa a usar as palavras ou os gestos sozinho em outra situação. É sinal de que está aprendendo.

O que costuma atrapalhar

  • Falar demais na hora do choro. Muitas palavras ao mesmo tempo viram barulho. Na hora, menos é mais; a conversa fica para depois.
  • "Para de chorar" ou "não foi nada". A criança aprende que o que ela sente não tem nome. Troque por "você ficou triste, eu tô aqui".
  • Mudar o sinal toda hora. Repetição é o que ensina. Use sempre os mesmos gestos, as mesmas palavras e, se houver terapia, os mesmos que a equipe usa.
  • Esperar que ela peça como um adulto. Um gesto, um olhar ou uma figura já é comunicação. Valorize.

Quando procurar ajuda

Converse com o pediatra e procure um fonoaudiólogo se seu filho tem crises de choro muito frequentes e difíceis de acalmar, quase não usa gestos nem palavras para pedir as coisas, não responde quando é chamado ou perdeu palavras que já falava. Também vale contar ao pediatra se o sono, a alimentação ou algum incômodo físico parecem estar por trás do choro. Quem avalia é o profissional, e ele pode orientar a família com estratégias pensadas para o seu filho.

Para começar hoje

Escolha um gesto, talvez o de "acabou", e use em todas as situações do dia: no fim do banho, da comida, da música. Fale a palavra junto, devagar. Em poucas semanas de repetição, a criança começa a reconhecer, e um dia devolve. Quem enjoa da repetição é a gente.

No Cultiva Fala, a Brígida mostra como usar gestos, rotina e brincadeira a favor da comunicação, fase a fase, com tudo demonstrado na prática.

Brígida Maris, fonoaudióloga

Quem escreve

Brígida Maris é fonoaudióloga formada pela UFMG, especialista em Linguagem e mestre em Neurociências. Criou o Cultiva Fala para ajudar famílias a estimular a fala em casa, no dia a dia.

@brigidamaris_

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