Cultiva Fala — Estimulação da Linguagem Infantil
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Como ensinar a criança a pedir para fazer xixi (e cocô)

Brígida Maris, fonoaudióloga6 min de leitura
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Você tirou a fralda, comprou o penico, e ele até senta. Mas o xixi sai no tapete, e só depois vem o choro ou o "molhou". Se você está procurando como ensinar a criança a pedir para fazer xixi, vale olhar para uma parte do desfralde de que pouca gente fala: avisar é um ato de comunicação. E comunicação a gente ensina em casa, no dia a dia.

O controle do corpo é com o corpo dela, e com o pediatra quando houver dúvida. O jeito de avisar é com você. É disso que este guia trata.

Antes de pedir, a criança precisa perceber e ter um jeito de dizer

Para pedir o banheiro, a criança junta três coisas: sentir que vem o xixi, entender o que aquilo significa e ter um jeito de contar para alguém. Muitas crianças sentem e entendem, mas ainda não têm a palavra pronta na hora certa. Outras ainda nem ligaram a sensação ao nome.

Segundo a Academia Americana de Pediatria (AAP), no site para famílias HealthyChildren.org, muitas crianças mostram sinais de que estão prontas entre os 18 e os 24 meses, e muitas outras só depois, por volta dos 2 anos e meio a 3 anos. É uma faixa larga mesmo: cada criança tem seu ritmo, e começar antes da hora costuma deixar o processo mais longo e mais cansativo para todo mundo.

Alguns sinais de prontidão que têm tudo a ver com comunicação:

  • ela se esconde ou para quieta quando está fazendo na fralda;
  • mostra a fralda suja, puxa ou reclama dela;
  • entende frases simples como "vamos ao banheiro";
  • imita o que os adultos fazem (inclusive no banheiro).

Passo a passo para a criança aprender a avisar

  1. Escolha uma palavra só e use sempre a mesma. "Xixi" e "cocô" são ótimas: curtas, fáceis de dizer e todo mundo entende. Combine com a escola, os avós e a babá. Se cada adulto fala de um jeito ("pipi", "fazer número 1", "ir ao trono"), a criança tem três palavras para guardar em vez de uma.

  2. Dê nome na hora em que acontece. Quando perceber que ela está fazendo, fale na altura dos olhos, calmo: "Xixi! Tá saindo xixi." Sem bronca e sem festa exagerada. Você está ligando a sensação à palavra.

  3. Ofereça um gesto junto com a palavra. Um gesto simples, como a mão na barriguinha ou apontar para o banheiro, ajuda a criança que ainda fala pouco a avisar. Gesto não atrapalha a fala: ele abre caminho para ela. Faça o gesto sempre que disser "xixi", e aceite quando ela usar só o gesto.

  4. Coloque o banheiro no quadro de rotina. Uma figura de "fazer xixi" depois de acordar, antes do banho e antes de dormir deixa o dia previsível. A criança vê que aquele momento vem e se prepara. Dá para montar o seu no Quadro de rotina para imprimir, com os cartões de figuras para colar na geladeira.

  5. Pergunte com opções, não com "quer fazer xixi?". A resposta para "quer?" quase sempre é "não", porque ela está brincando. Experimente: "Vamos ao banheiro antes ou depois de guardar o carrinho?". A ida acontece, e quem escolhe é ela.

  6. Espere em silêncio antes de completar. Na porta do banheiro, diga "Vamos fazer…" e pare. Dê alguns segundos para ela completar com "xixi" ou com o gesto. O silêncio cria a oportunidade. Se não vier, complete você, com tranquilidade: "xixi!".

  7. Dê significado a toda tentativa de avisar. Se ela puxou a calça, olhou para você ou disse "xi", isso já é aviso. Responda na hora: "Você quer fazer xixi! Vamos." Ela aprende que avisar funciona.

  8. Comemore o avisar, não só o acertar. Às vezes ela avisa quando o xixi já saiu. Ainda assim, avisou. "Você me contou! Obrigada por me contar." Na próxima, o aviso tende a vir um pouco antes.

Mãe agachada na altura da filha, na porta do banheiro, as duas apontando para o vaso e sorrindo

Quando escapa: o que dizer e o que evitar

Escape faz parte. O que você fala nessa hora ensina muito.

Em vez de: "De novo? Por que você não avisou?" Experimente: "Saiu xixi. Tá molhado. Vamos trocar. Da próxima vez, me fala 'xixi'."

Frases curtas, que dizem o que aconteceu e o que fazer. A criança pequena ainda não consegue responder "por quê", e a bronca costuma deixá-la com vontade de esconder, não de contar. Nada de chantagem ("se avisar, ganha doce") nem de "fala, fala": a vontade de avisar vem de dar certo, não de pressão.

A rotina ajuda mais que a cobrança

Alguns ajustes simples que deixam o avisar mais fácil:

  • Roupa fácil de tirar. Calça de elástico, sem botão. Se ela demora para tirar, o aviso chega tarde.
  • Mesmos momentos todo dia. Ao acordar, depois das refeições, antes do banho e antes de dormir.
  • Livro ou música no penico, por pouco tempo. Ajuda a criança a ficar sentada sem virar briga. Um livro de figuras simples vira conversa: "Olha o urso. O urso tá no penico também?"
  • Menos tela nessa hora. Criança concentrada no desenho não percebe o corpo, e muito menos avisa.

Se o checklist da família ajuda você a ver o que já está a favor e o que dá para mudar na rotina, vale fazer o Checklist Cultiva Fala, que mostra as 3 mudanças que mais valem a pena agora.

Quando procurar ajuda

O desfralde tem altos e baixos, e regressões em fases de mudança (irmão novo, escola nova, mudança de casa) são comuns. Mas vale conversar com o pediatra se a criança:

  • faz cocô duro, com dor, ou fica vários dias sem fazer;
  • segura o xixi ou o cocô por medo e chora para ir ao banheiro;
  • tinha deixado a fralda e voltou a molhar tudo, de repente, por várias semanas;
  • sente dor ou ardência para fazer xixi.

A prisão de ventre, inclusive, é um dos assuntos que a Sociedade Brasileira de Pediatria trata junto com o desfralde: neste episódio do PedCast, o Departamento Científico de Gastroenterologia da SBP fala sobre constipação e desfralde.

E procure um fonoaudiólogo se, além do desfralde, você percebe que a criança ainda não entende frases simples do dia a dia, não usa gestos para pedir as coisas ou fala muito pouco para a idade. Quem avalia é o profissional; você não precisa adivinhar sozinha.

Para começar hoje

Escolha a palavra da família (xixi e cocô), combine com quem cuida dela e ofereça um gesto junto. Hoje, cada vez que perceber que ela está fazendo, dê nome com calma. É pouco, e já é o começo do aviso.

No Cultiva Fala, a Brígida mostra como usar a rotina (banho, troca, refeição) para criar oportunidades de comunicação em cada fase, do bebê à fala.

Brígida Maris, fonoaudióloga

Quem escreve

Brígida Maris é fonoaudióloga formada pela UFMG, especialista em Linguagem e mestre em Neurociências. Criou o Cultiva Fala para ajudar famílias a estimular a fala em casa, no dia a dia.

@brigidamaris_

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