Cultiva Fala — Estimulação da Linguagem Infantil
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Criança autista que fala, mas não conversa: como ajudar

Brígida Maris, fonoaudióloga5 min de leitura
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Seu filho sabe o nome de todos os dinossauros, conta o desenho inteiro de cor e usa palavras que surpreendem. Mas, quando você tenta conversar, ele responde outra coisa, fala só do assunto dele ou não percebe que você mudou de tema. Se você quer saber como ajudar a criança autista a conversar, comece por aqui: falar e conversar são coisas diferentes.

A boa notícia é que conversar também se aprende, e a casa é um ótimo lugar para treinar.

Falar não é o mesmo que conversar

Saber palavras e montar frases é uma parte da linguagem. Usar essas palavras com outra pessoa é outra parte. A ASHA, a associação americana de fonoaudiologia, chama esse uso social de comunicação social (ou pragmática): usar a linguagem para diferentes objetivos (pedir, comentar, perguntar), adaptar o jeito de falar a quem está ouvindo e seguir as "regras" da conversa, como esperar a vez, manter o assunto e perceber quando o outro não entendeu. Mais informações no site da ASHA: https://www.asha.org/public/speech/development/social-communication/.

Para muitas crianças autistas, essa é justamente a parte que pede mais apoio. Não é falta de inteligência nem de vontade de estar com você. É um jeito diferente de perceber as pistas que a gente costuma "pegar no ar": o tom de voz, a expressão do rosto, o que está subentendido.

Por isso, o caminho em casa é mostrar com clareza o que, para outras crianças, aconteceria sem ninguém explicar.

Passo a passo para treinar a conversa em casa

Estas ideias servem para crianças que já falam algumas palavras ou frases, mais ou menos dos 3 aos 6 anos. Elas não substituem a terapia: são o apoio da família ao trabalho do fonoaudiólogo. Converse com o profissional que acompanha seu filho para ajustar cada passo ao jeito dele.

1. Entre no assunto que ele ama

Se o assunto é dinossauro, comece pelo dinossauro. O interesse dele é a porta de entrada, não o problema. Sente perto, na altura dos olhos, e comente algo curto.

O que dizer: "Esse é o maior! Ele é grande… e o seu?"

O que observar: ele olha para você, mostra o dinossauro dele ou responde de algum jeito? Isso já é um turno.

2. Deixe a vez visível

Para algumas crianças, "agora é sua vez" fica abstrato. Use algo concreto que passa de mão em mão: uma bola, um microfone de brinquedo, o próprio dinossauro. Quem está com o objeto fala; depois passa.

O que fazer: fale uma frase curta, passe o objeto e espere. O silêncio cria a oportunidade. Conte até cinco por dentro antes de ajudar.

3. Faça perguntas com opções

"Como foi a escola?" é difícil de responder. Perguntas com escolha ajudam a conversa a começar.

O que dizer: "Na escola você brincou no parque ou na sala?", "Você quer contar do lanche ou do amigo?"

Se ele responder só uma palavra, dê significado e devolva ampliado: "Parque! Você brincou no parque. Foi no escorregador?"

4. Diga em voz alta o que não é dito

Muitas pistas da conversa ficam escondidas no rosto e no tom. Ajude seu filho a enxergá-las, sem bronca e sem sermão.

O que dizer: "Olha a cara do vovô. Ele ficou com sono. Acho que ele quer descansar agora." ou "A Ana está olhando para o brinquedo. Acho que ela quer brincar também."

E quando usar uma expressão como "estou morrendo de fome", explique logo depois: "Não estou morrendo de verdade. Quer dizer que estou com muita fome!".

5. Combine como mudar de assunto

Mudar de assunto sem avisar confunde. Use uma frase-ponte sempre igual e ensine seu filho a usar também.

O que dizer: "Agora eu quero falar de outra coisa: o jantar." Depois de falar um tempo do assunto dele, combine: "Mais uma coisa sobre o dinossauro, e depois é minha vez de contar uma coisa."

Uma figura de "minha vez" e "sua vez", ou o quadro de rotina para mostrar o que vem depois, ajudam muitas crianças a se organizar.

Mãe e filho sentados no chão passando um dinossauro de brinquedo de mão em mão enquanto conversam

6. Treine a conversa em brincadeiras curtas

Algumas brincadeiras são uma conversa com regras claras:

  • "O que tem na caixa?": cada um tira um objeto e diz uma coisa sobre ele.
  • Batata quente com categorias: quem fica com a bola diz um bicho, uma fruta, um brinquedo.
  • Faz de conta curto: mercadinho, médico, cozinha. Um pede, o outro entrega, depois troca.
  • Ler o mesmo livro vários dias: você pergunta, ele responde; depois ele pergunta para você.

Comece com poucos turnos e celebre cada troca com alegria, nunca com chantagem.

O que evitar

  • Corrigir com "não é assim": em vez disso, mostre o jeito: "Você pode dizer: posso brincar também?".
  • Forçar ("fala, fala"): a pressão costuma fechar a conversa.
  • Encher todo silêncio: dê tempo. Algumas crianças precisam de mais segundos para organizar a resposta.
  • Achar que é falta de educação: monólogo e resposta "fora de contexto" fazem parte do que ele ainda está aprendendo.

Se o choro e a agitação aparecem quando a conversa fica difícil, veja também como ensinar a criança a falar o que sente.

Quando procurar ajuda

Se você ainda não tem orientação profissional e nota que seu filho tem dificuldade para trocar turnos, responder quando é chamado ou usar a fala para se comunicar com outras pessoas, converse com o pediatra e procure um fonoaudiólogo. Só a avaliação diz o que seu filho precisa. Se ele já está em terapia, conte ao fonoaudiólogo o que você observa em casa e peça ideias para treinar no dia a dia. Gesto, figuras e comunicação alternativa não atrapalham a fala; entenda melhor em comunicação alternativa atrapalha a fala?.

Para hoje

Escolha o assunto preferido do seu filho, pegue um objeto para passar de mão em mão e tente cinco trocas: você fala, passa, espera, ele responde. Cinco trocas já são uma conversa. Você é a pessoa mais importante nesse processo.

No curso Cultiva Fala, eu mostro como estimular a comunicação fase a fase, com brincadeiras que servem de apoio à terapia, nunca de substituto.

Brígida Maris, fonoaudióloga

Quem escreve

Brígida Maris é fonoaudióloga formada pela UFMG, especialista em Linguagem e mestre em Neurociências. Criou o Cultiva Fala para ajudar famílias a estimular a fala em casa, no dia a dia.

@brigidamaris_

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